terça-feira, 1 de junho de 2010

O custo da vida

Pense nas pessoas, seus empregos, trabalhos e no quanto cada uma ganha por isso. Cada trabalho tem uma remuneração diferente. Cada desempenho tem uma remuneração diferente, nem sempre. Mas de certa forma atribuimos valor ao trabalho realizado, e por mais divergentes que sejam os sistemas de remuneração, sempre existe uma razão de proporcionalidade a alguma coisa. Os operários ganham pouco. Os policiais ganham pouco. Os políticos ganham muito. Os executivos ganham muito. Posso afirmar, com segurança, que nenhuma relação de proporcionalidade concebida para estes exemplos envolvem tempo de vida dedicado ao trabalho. Todos trabalham em torno de 8 horas por dia. Quando trabalham mais que isso, geralmente ganham menos ainda.

Atualmente, no planeta Terra, o ser humano, para satisfazer sua necessidade mais básica, a alimentação, precisa, de alguma forma, trabalhar. O trabalho traz o dinheiro, que é necessário para comer. Pois comida custa dinheiro. Apesar de brotar do chão, custa dinheiro. Não seria simples usar toda essa tecnologia disponível no mundo e dar comida de graça para todas as pessoas? Sim, seria. Isto é viável. Porque então temos que trabalhar para ganhar dinheiro para comprar comida para não morrer de fome? Boa pergunta, pois somos educados desde o berço que precisamos trabalhar para ganhar dinheiro para comprar comida para não morrer de fome.

Vejam como é justa e bem dividida a sociedade. Ricos e pobres. Classe A, B, C, D e E. Classe média alta, classe média baixa. Alguns moram na favela, outros em condomínios fechados com segurança e lazer próprios. Mas não seria a favela um condomínio fechado com segurança e lazer próprios? Enfim, a disputa de classes é uma realidade. O de baixo quer subir. O de cima quer subir mais. É quase como passar de fase no vídeo-game. Quando crescer, vou trabalhar duro e subir na vida. E se não conseguir, vou me opor a quem conseguiu. Vou achar tudo isso muito injusto. Porque como apenas arroz e feijão todos os dias? Eu quero mais. Mas porque? Porque existe mais. Mas porque? Porque fizemos mais.

Naturalmente, se existe tanta coisa para se ter, é porque alguem trabalhou para produzir tanta coisa. O trabalho das próprias pessoas produz a coisa que é desejada, enquanto o trabalho da natureza produz a coisa que satisfaz nossa necessidade mais básica. Mas para tornar útil o produto do trabalho da natureza, é necessário trabalho humano. Isto poderia ser substituido por alguma tecnologia, que com alguma pequena manutenção serviria entregando o trabalho da natureza gratuitamente a todos nós. Para isto, é claro, seria necessário o trabalho de algumas pessoas. Não todos, mas algumas. As outras não precisariam trabalhar para ganhar dinheiro para comprar comida e não morrer de fome. Não seriam sufocadas por esta pressão enorme, seriam seres humanos mais tranquilos por conta disto, inclusive.

Se o trabalho está colocado como um obstáculo direto à alimentação, é natural que tenhamos uma impressão ruim dele. Depois de pensar, então, que o trabalho não é necessário a todos, mas que gastamos nossa vida trabalhando para não morrer de fome. Bom, se não é necessário a todos, eu não precisaria trabalhar, outra pessoa o faria. Álias, tem até gente que gosta. Mas vai saber o que passa na cabeça. Tem até gente que gosta de apanhar. Sendo visto como um castigo, desta maneira, o trabalho segue trocando o tempo de nossas vidas por dinheiro. Tempo este, gasto em atividades na maioria dos casos desinteressante ao que trabalha. Não posso escolher o trabalho, pois tenho garantir minha alimentação. Isto fatalmente aloca o tempo de vida destas brilhantes criaturas falantes de maneira desagradável e ineficiente. Que merda.

É um sistema magnífico, este capitalista. Uma engrenagem furiosa e implacável, lubrificada por todo o dinheiro gerado pelo trabalho. Motivado pelo medo da fome. Neste momento lembro de um cachorro correndo desesperadamente em torno de si mesmo, querendo morder seu próprio rabo. O dinheiro simplifica as relações, neste caso. Você dá uma quantia e algo proporcional acontece. Você realiza um trabalho e ganha uma quantia proporcional, dentro de qualquer razão equivocada de proporcionalidade que possa existir. A desigualdade ferve o caldeirão que alimenta as turbinas desta usina de energia humana. Não há tempo para descanso, você precisa comer. E comer custa dinheiro, que você ganha trabalhando. Em algo que geralmente desinteressa, a você mesmo ou até mesmo a todos. Mas é ruim que o trabalho desinteresse a todos. Isto não seria motivador. O trabalho precisa interessar. Precisa haver vontade de progredir, de crescer, de subir. Para isto precisamos consumir todo o trabalho realizado. Para que assim todo ele interesse. Vamos transformar tudo que é produzido em algo que interesse e seja consumido. Vamos determinar o que, quando, e quanto precisa ser consumido.

O medo de sentir fome faz o ser humano ter que trabalhar. Mas o ser humano não quer trabalhar, o ser humano só quer comer. Vamos consumir qualquer porcaria que ele produza, para que assim ele seja motivado a continuar trabalhando. Para organizar todas estas relações usamos o dinheiro. Para guardar todo esse dinheiro usamos os bancos. Para financiar todo este trabalho, usamos o nosso tempo de vida. Usamos nossa vida para pagar nossa própria vida. Somos escravos da nossa própria existência.


Nenhum comentário:

Postar um comentário