Atualmente, no planeta Terra, o ser humano, para satisfazer sua necessidade mais básica, a alimentação, precisa, de alguma forma, trabalhar. O trabalho traz o dinheiro, que é necessário para comer. Pois comida custa dinheiro. Apesar de brotar do chão, custa dinheiro. Não seria simples usar toda essa tecnologia disponível no mundo e dar comida de graça para todas as pessoas? Sim, seria. Isto é viável. Porque então temos que trabalhar para ganhar dinheiro para comprar comida para não morrer de fome? Boa pergunta, pois somos educados desde o berço que precisamos trabalhar para ganhar dinheiro para comprar comida para não morrer de fome.
Vejam como é justa e bem dividida a sociedade. Ricos e pobres. Classe A, B, C, D e E. Classe média alta, classe média baixa. Alguns moram na favela, outros em condomínios fechados com segurança e lazer próprios. Mas não seria a favela um condomínio fechado com segurança e lazer próprios? Enfim, a disputa de classes é uma realidade. O de baixo quer subir. O de cima quer subir mais. É quase como passar de fase no vídeo-game. Quando crescer, vou trabalhar duro e subir na vida. E se não conseguir, vou me opor a quem conseguiu. Vou achar tudo isso muito injusto. Porque como apenas arroz e feijão todos os dias? Eu quero mais. Mas porque? Porque existe mais. Mas porque? Porque fizemos mais.
Naturalmente, se existe tanta coisa para se ter, é porque alguem trabalhou para produzir tanta coisa. O trabalho das próprias pessoas produz a coisa que é desejada, enquanto o trabalho da natureza produz a coisa que satisfaz nossa necessidade mais básica. Mas para tornar útil o produto do trabalho da natureza, é necessário trabalho humano. Isto poderia ser substituido por alguma tecnologia, que com alguma pequena manutenção serviria entregando o trabalho da natureza gratuitamente a todos nós. Para isto, é claro, seria necessário o trabalho de algumas pessoas. Não todos, mas algumas. As outras não precisariam trabalhar para ganhar dinheiro para comprar comida e não morrer de fome. Não seriam sufocadas por esta pressão enorme, seriam seres humanos mais tranquilos por conta disto, inclusive.
Se o trabalho está colocado como um obstáculo direto à alimentação, é natural que tenhamos uma impressão ruim dele. Depois de pensar, então, que o trabalho não é necessário a todos, mas que gastamos nossa vida trabalhando para não morrer de fome. Bom, se não é necessário a todos, eu não precisaria trabalhar, outra pessoa o faria. Álias, tem até gente que gosta. Mas vai saber o que passa na cabeça. Tem até gente que gosta de apanhar. Sendo visto como um castigo, desta maneira, o trabalho segue trocando o tempo de nossas vidas por dinheiro. Tempo este, gasto em atividades na maioria dos casos desinteressante ao que trabalha. Não posso escolher o trabalho, pois tenho garantir minha alimentação. Isto fatalmente aloca o tempo de vida destas brilhantes criaturas falantes de maneira desagradável e ineficiente. Que merda.
É um sistema magnífico, este capitalista. Uma engrenagem furiosa e implacável, lubrificada por todo o dinheiro gerado pelo trabalho. Motivado pelo medo da fome. Neste momento lembro de um cachorro correndo desesperadamente em torno de si mesmo, querendo morder seu próprio rabo. O dinheiro simplifica as relações, neste caso. Você dá uma quantia e algo proporcional acontece. Você realiza um trabalho e ganha uma quantia proporcional, dentro de qualquer razão equivocada de proporcionalidade que possa existir. A desigualdade ferve o caldeirão que alimenta as turbinas desta usina de energia humana. Não há tempo para descanso, você precisa comer. E comer custa dinheiro, que você ganha trabalhando. Em algo que geralmente desinteressa, a você mesmo ou até mesmo a todos. Mas é ruim que o trabalho desinteresse a todos. Isto não seria motivador. O trabalho precisa interessar. Precisa haver vontade de progredir, de crescer, de subir. Para isto precisamos consumir todo o trabalho realizado. Para que assim todo ele interesse. Vamos transformar tudo que é produzido em algo que interesse e seja consumido. Vamos determinar o que, quando, e quanto precisa ser consumido.
O medo de sentir fome faz o ser humano ter que trabalhar. Mas o ser humano não quer trabalhar, o ser humano só quer comer. Vamos consumir qualquer porcaria que ele produza, para que assim ele seja motivado a continuar trabalhando. Para organizar todas estas relações usamos o dinheiro. Para guardar todo esse dinheiro usamos os bancos. Para financiar todo este trabalho, usamos o nosso tempo de vida. Usamos nossa vida para pagar nossa própria vida. Somos escravos da nossa própria existência.